a sala está quente e assim ela tem estado por muito meses.

enquanto correntes de instabilidade escorrem pelo teto, deixando cair gotas de insanidade sobre meus ombros mal-intencionados, eu conto os cigarros que me faltam: três. pondero sobre acender o ante-penúltimo deles. pondero sobre tomar uma dose de whisky. mas o sentimento, ou sensação, fisicamente torpe que se apossa dos meus ossos me diz que não. acendo um cigarro, então.

você pega um dedo, e então outro dedo, e então um cigarro. sábias e vãs palavras. não é possível controlar um cigarro, quanto mais seus dedos, durante um terremoto. você se apodera dele, você mergulha nele como se fosse uma piscina, fecha seus olhos, apenas para descobrir que não havia água no final, e quando você finalmente ultrapassa a barreira do chão, rios de lava te esperam, rios de lava que te refrescam do calor que reinou durante meses na sala.

correção, reina.

ah, terremotos, não há nada de belo ou glorioso sobre eles. é a pura alma da anarquia, a destruição em sua forma mais bruta, em toda a multiplicidade de sentidos que a palavra ‘bruta’ comporta. é preciso destruir. é preciso destruir sem alma, sem dó, sem coração. nada pode ser construído sem que se destrua. e não ceda à tentação de manter as fundações, de aproveitá-las para reconstruir sua atopia. destrua, como um furacão, não, como apenas um terremoto é capaz. inutilize os pedaços mais aparentemente inúteis da construção.

quando um pedaço do teto desabar a centímetros da sua cabeça, você saberá que está no caminho certo.

o rio de insanidade segue seu fluxo de inconsciência, e a instabilidade reina. junto com o calor. e mesmo assim, está tão frio. ah, está tão frio. não, não, não, não era para ser assim. nunca é para ser de modo nenhum, mas o terremoto destrói pelo prazer de destruir, para que possamos construir depois. são continentes em transição, e não há força em lugar nenhum desse planeta mais imprevisível que os continentes.

o cigarro chega ao fim. estou submerso até o pescoço no mar da insanidade. sinto-me na lua. em seu lado negro. ah, eu esperei tanto pela destruição, e quando ela vem, ela consegue me pegar de surpresa. o céu está cinza, o ar empoeirado, vigas quebradas de casas sem teto ilustram a paisagem. é como o inverno nuclear, exceto que está quente. muito quente. os choques secundários estão por vir.

mas preciso dormir. doces pesadelos me aguardam.