então, crianças. antes de qualquer coisa, assistam a este vídeo:

assistiram? pois bem, tenho a sensação de ter feito exatamente a mesma coisa com meu cérebro hoje. e com algo que traz bem menos retorno do que cocaína.

não sei por que cargas d’água resolvi me submeter a acompanhar um episódio da teenovelinha global malhação. um pouco de tédio, preguiça suprema de pegar o livro que estou para começar a ler há alguns dias, inércia enquanto esperava a pelada da seleção, enfim. o fato é que eu cometi essa atrocidade comigo mesmo.

num passado negro, já gastei dias e dias da minha vida assistindo a esse subproduto da indústria cultural. eu era jovem, inocente, facilmente seduzível pela grande mídia, mas acho que posso dizer sem sombra de dúvidas que, embora esse crime televisivo jamais tenha sido digno de uma nota maior que um, ele já foi melhor – ou menos pior.

o que eu assisti hoje não apenas arrancou um pedaço do meu cérebro, mas também me deixou preocupado com o futuro das crianças desse país. os ingredientes clássicos estão lá: maniqueísmo, inexistência de qualquer coisa próxima de merecer ser chamada de “atuação” por parte das pseudo- e futuras celebridades presentes, barulhos inaudivelmente comerciais tentando se passar por música etc. o problema é que além disso, na tentativa de fazer uma edição “moderna”, a empresa da família marinho conseguiu a proeza de estupidificar a estupidez.

o episódio possivelmente teve umas cinco ou seis cenas no total. mas nenhuma delas foi exibida na íntegra; todas, mas absolutamente todas as cenas, sem exceção, foram “picotadas” e exibidas intercaladamente, às vezes com três ou quatro cenas sendo recortadas ao mesmo tempo. analisar esse formato pode mostrar exatamente o que a vênus platinada espera da nossa próxima geração: rápida, ágil, impaciente e incapaz de se concentrar por mais que trinta segundos num mesmo assunto.

o ponto aqui é exatamente o mesmo trazido por essa tal “era da internet” no mundo jornalístico. há mais anos do que eu gosto de lembrar, quando eu era um aprendiz de sith1, assisti a uma aula no curso de publicidade da eca, dada, numa dessas ironias da vida, justamente por algumas professoras que fazem parte do núcleo de análise da teledramaturgia brasileira, que falava sobre educação para os meios. mais de uma vez me vi obrigado a recorrer a esse tema numa discussão teórica, e agora novamente ele vem à tona.

o advento da internet e a progressiva “internetização” da televisão trouxeram uma certa democratização da informação – vide o fato de eu ter um espaço onde posso publicar meus textos, como este blog – mas também trouxeram uma cacofonia exagerada de fontes. hoje, você tem tantas informações sendo bombardeadas sobre você, e essas informações são tão homogeneizadas, que não há espaço para reflexão crítica. antes que você possa pensar nas causas e conseqüências de o índice bovespa ter despencado 10%, já vem a notícia de que ele subiu 5%, e você sequer pára para pensar que esses 5% de recuperação são relativos ao novo patamar, mais baixo, que havia sido atingido quando o índice despencou os 10% iniciais.

o ponto é que, sem um ensino sistematizado de educação para os meios, esse formato de mídia jornalística caminha para uma progressiva idiotização da população consumidora de notícias. e por educação para os meios não se fala apenas de ensinar as pessoas como operar o internetchqsplórer e o uíndous, mas sim como julgar a credibilidade das fontes de informações e reconhecer as redundâncias de recorte entre diferentes veículos. não é nem de longe uma ciência exata, eu concedo, mas ensinar a pensar nunca foi uma ciência exata.

não que eu esperasse que malhação fosse passível de qualquer tipo de reflexão crítica, mas assistir a esse episódio me deixou estupefato justamente pelo fato de não apenas a reflexão crítica ser suprimida pelo conteúdo do programa, mas também intrinsecamente pelo seu formato. dado que o programa é dirigido diretamente ao público pré-adolescente, portanto em formação, fica difícil disfarçar a intenção de incapacitar a próxima geração de fazer questionamentos. a vida é simples assim, garoto: tudo acontece tão rápido e tão ao mesmo tempo que é melhor nem tentar pensar. just enjoy the ride.

em tempo: antes que alguém me acuse aqui de fazer inferências disparatadas, um fato curioso que aconteceu agora durante a transmissão do jogo de futebol: durante os primeiros minutos do jogo, houve um problema com o áudio vindo de londres, emudecendo, infelizmente por poucos minutos, a dupla dinâmica galvão bueno e arnaldo césar coelho. o que acontece? eis que cléber machado, eterno vice-narrador da emissora, entra em campo continuando a narração do ponto onde havia parado, quase que imediatamente após o defeito. ou seja, o segundo narrador mais importante da casa estava de prontidão no estúdio, no brasil, na eventualidade de qualquer problema acontecer no sinal vindo do exterior.

dá para acreditar que a globo dê ponto sem nó, garotada?

1 o primeiro inferno traz mais crônicas da época em que eu ainda professava o lado negro da força no curso de publicidade, e também alguns dos eventos que me levaram ao jornalismo, caso alguém esteja interessado.