estela corria em disparada pela avenida paulista. as primeiras gotas d’água começavam a cair esporadicamente em sua mão, seus braços, seu cabelo. estela não gostava de chuva, e tinha esquecido seu guarda-chuva em casa. apesar do verão escaldante da cidade de são paulo, a meteorologia garantira-lhe que naquele dia não iria chover. merda, pensou consigo mesma. por que raios fui acreditar em algo tão confiável quanto a previsão do tempo?

estela corria para o metrô. aquele dia não tinha sido dos melhores para ela. certo, isso foi um eufemismo: aquele dia havia sido terrível para estela. na agência, um cliente ligara reclamando porque ela fizera exatamente aquilo que ele houvera pedido. seu chefe, evidentemente, defendera o cliente, e aquilo era o bastante para tirar estela do sério.

mas as mesquinharias do dia-a-dia podiam tirar estela do sério, mas não de sua fortaleza emocional. o que realmente irritava estela, o que a deixava tão irritada, mais que seu chefe, mais que a chuva, era a rotina. a perspectiva de ir e voltar, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. das festas para os hotéis, dos hotéis para as casas de amigos. sua vida tocava como um toca-discos que fosse servido um disco riscado. e sequer era uma canção bonita aquela em que estava presa.

quando a diversão tornara-se rotina, algo morrera dentro de estela. seus sonhos e ambições estavam lá. seu coração batia, seus pulmões respiravam, seu cérebro tinha seus curto-circuitos. mas ela não tinha mais algo essencial, algo que a definira em anos anteriores. um vazio tomara conta dela, e ainda assim, tudo que ela pensava era em conseguir chegar à estação consolação antes da maldita chuva.

foi quando, de repente, uma gota acertou-lhe bem entre os olhos. estela parou de súbito e olhou para cima: a chuva começara. e como se aquele fosse o momento pelo qual esperava há tanto tempo, estela levantou os braços e sorriu.

os guarda-chuvas apressados, ainda presos em sua ignorância dos princípios mais simples da vida, passavam ao lado de estela reclamando, almadiçoando, mas nada disso mais importava. estela dançava sob a chuva, braços abertos, sorriso aberto, peito aberto. dançava a bela próxima canção, que tanto demorara para ser alcançada pela agulha, mas que agora podia ser ouvida, e estela espantava-se com sua própria beleza. estela fechou os olhos, molhados não sabia ela se mais por lágrimas ou pela chuva, e tornou a abrí-los.

foi então que estela viu a neve.