paraíso perdido.
ela se levantou da cadeira, foi decidida até a cozinha, pegou um copo e encheu com coca-cola. encheu é força de expressão; não havia o suficiente para encher o copo. não tinha mais tanto gás como deveria, mas isso não a incomodava; ela preferia refrigerante sem gás. gases provocavam queimação. no longo movimento de fechar a geladeira, olhou de soslaio para o que ainda restava: um saco de pão de forma de alguns meses atrás, margarina, diversos molhos, cebolas com raízes crescendo. aquilo foi o suficiente para tirar sua fome.
voltou para seu quarto, sentou-se em sua cadeira e olhou para a tela do computador. não havia ninguém para conversar. pensou em ligar para alguém, mas às três horas da manhã não seria uma boa idéia. abriu a janela e acendeu um cigarro. e começou a pensar em como odiava os paladinos do anti-tabagismo. como pouco importava se estava ou não de fato “viciada” enquanto aquelas baforadas lhe dessem prazer.
da janela do seu quarto, podia ver as sombras dos prédios que, a alguns quarteirões dali, situavam-se na avenida paulista. contemplou a fumaça do cigarro fazer belos desenhos em contraste com aquelas sombras e com as luzes de natal que se destacavam na paisagem. natal. comemorar o nascimento de um sujeito que foi o responsável pelos católicos, e, pior, pelos protestantes? ainda assim, naquele natal, reunir-se-ia com parentes que há muito não encontrava.
tentou relembrar de seu ano, dos pontos altos, dos pontos baixos, tentou pensar em como contaria o que tinha feito durante todo aquele tempo. ela tinha uma tendência de falar e pensar literariamente. gostava de entrar em detalhes sobre determinados eventos. gostava de dizer que determinada pessoa usava sapatos vermelhos enquanto a história que contava acontecia. gostava de florear, de integrar o ouvinte ao clima da história, fazê-lo sentir-se parte dela, e organizava a ordem do que contava não cronologicamente, mas pelo potencial de impacto. arrematava as histórias com um grande clímax. os impacientes detestavam sua maneira contar histórias, mas, para ela, era quase uma definição de seu modo de ser.
mas, ao tentar fazer isso com seu ano, percebeu que não havia uma história. não havia um clímax, não havia um começo. e então entendeu que a vida não é um filme de hollywood. que não há morais, não há lições. não há sequer boas histórias a serem contadas. os eventos são aleatórios; ou, se não os são, há fatores demais em jogo para se montar um roteiro. strange things happen all the time.
um barulho no computador. alguém queria falar com ela. olhou novamente para paisagem que se estendia do paraíso à consolação. atirou longe a bituca e fechou a janela.
logo, seriam oito horas da manhã.

fagulhas