e pur si muove.
este causo que vou lhes contar hoje é algo que estava guardado em uma gaveta da minha mente há algum tempo, mas que, por motivos, digamos, políticos, eu não poderia ter escrito mesmo que o inferno estivesse à tona na época em que ocorreu.
religião é um tema deveras controverso. cada um tem a sua, e geralmente é bastante aguerrido na defesa de suas crenças. eu aprendi isso da maneira mais difícil possível, quando, ainda à época do primeiro inferno, perdi definitivamente aquela que era uma grande amiga por conta de uma tola discussão metafísica sobre a existência ou não de deus. e vejam bem, não estamos aqui falando de nenhuma carola, e sim de uma pessoa espiritual, mas com a mente aberta que, justificadamente, não foi capaz de tolerar meu ateísmo galopante e, à época, desrespeitoso.
pois bem, o tempo passou, o bamerindus faliu (a ironia justifica o anacronismo), e eu aprendi algumas coisinhas sobre respeitar as crenças religiosas dos outros. como dizem os nativos da capital do império, eu aprendi a arte do agree to disagree. mas, de tempos em tempos, eu me sinto compelido a desabafar sobre certas coisas que me indignam. já ouvi por aí que a capacidade de se indignar diante de injustiças (independente de qual seja o seu conceito de “justiça”) é um dos pré-requisitos para a profissão de jornalista, e, assim, venho aqui relatar um caso que aconteceu comigo e que envolve o possivelmente mais espinhoso dos “assuntos probidos” (religião, política e futebol).
a memória me falha quanto a datas exatas – pode ter sido no começo desse ano ou no começo do ano passado, no final do passado ou no final do retrasado. o que eu lembro com certeza é que a história começou perto de algum dos natais, quando uma pessoa, a quem eu precisava, novamente, por motivos políticos, agradar, sugeriu-me fortemente que eu procurasse aceitar jesus como meu salvador ou algo do tipo. em outros tempos, eu teria me engajado numa discussão de proporções épicas e, posteriormente, tido uma crise de riso com a mera verbalização de uma sugestão tão absurda para mim. mas os tempos não eram mais aqueles.
caminhando sobre uma tênue linha entre verdade e mentira, disse que consideraria a sugestão, aceitei um livro sobre o assunto com a promessa de que o devoraria de cabo a rabo, sob o argumento de que estava realmente passando por uma fase difícil da minha vida e que talvez o diabo tivesse algo a ver com isso (bom, vejam só, eu vim parar no inferno). vejam bem, não fui de todo desonesto: eu de fato estava numa fase péssima, tinha passado por um período grave da minha depressão crônica (hoje estou em paz com o fato de que vou ser deprimido para sempre, afinal, é o legado da nossa miséria, não?), mas o que eu deixei de dizer era o mais importante: fase difícil por fase difícil, não me lembro de qualquer período da minha vida que eu não tivesse caracterizado na época por esse título. e, posteriormente, muitas dessas “fases difíceis” viraram meus “bons tempos”.
outro fato que convenientemente preferi omitir era o de que não havia a menor possibilidade de que eu me tornasse um adepto honesto. desde muito cedo na minha vida fui corrompido pelas forças do mal, a “trindade do demônio”: marx, engels e, gosto de acrescentar, feuerbach. feuerbach foi uma das bases para a crítica de marx à religião, mas a verdade é que feuerbach, mesmo ateu, era um verdadeiro amante da religião – e é com a sua posição que eu me identifico mais. embora eu não acredite que uma vírgula sequer da bíblia tenha de fato acontecido, respeito o livro como uma das maiores obras da literatura mundial, e uma verdadeira lição de adoração não a um deus, mas ao humano. minha divergência com os cristãos restringe-se ao caráter ficcional da obra, que para mim é evidente, mas que para eles é inaceitável. a admiração pelas fábulas, pela fantástica mitologia (não importando se encaramos a palavra como “história” ou “estória” sagrada) e até mesmo pelas suas contradições é mútua.
finda essa pequena digressão, continuemos com o causo. no fim, topei assistir a um “culto”, com o propósito de conhecimento, para saber se aquilo era de fato ou não para mim, mesmo eu já sabendo a resposta. aí sim entra a verdadeira vilã da história.
outra coisa em que mudei muito foi em relação ao respeito às liberdades individuais. a minha utopia social, que já não mais alimento esperanças de que aconteça, seja em minha breve passagem por este planeta ou posteriormente, tem total liberdade individual e nenhuma liberdade econômica. e, embora similar à minha utopia passada, atualmente o termo “liberdade individual” também inclui “liberdade religiosa”, o que não ocorria anteriormente. cada um é livre para acreditar no que quiser. se eu quero acreditar que há trilhões de anos um alienígena chamado lorde xenu jogou nos vulcões da terra as almas de todos os thetans e que passou milhares de anos exibindo vídeos de lavagem cerebral a elas, e que elas vieram a se tornar nossas almas, é meu direito. e, mesmo que você ache risível ou absurda a história, não é seu direito rir ou discordar.
o trem começa a descarrilar quando eu passo a exigir que você concorde comigo. e isso pode acontecer de várias maneiras. eu posso ameaçar lhe queimar na fogueira caso você discorde, posso vir com a melhor das boas intenções e dizer que quero lhe abrir as portas do céu e melhorar sua vida terrena, posso aproveitar-me de você a princípio ter simpatizado com minha idéia e lhe impedir, seja por coerção social ou física, de mudar de opinião posteriormente. tudo isso, para mim, entra na categoria de desrespeito à liberdade individual alheia. a minha religião é minha, e a sua é sua, e nem com a melhor das intenções eu tenho o direito de querer lhe impor aquilo em que acredito. eu posso dizer o quanto me fez bem o curso de ”thetan operativo” ou declarar publicamente minha religião. se você estiver interessado, você me perguntará.
a vilã da história, enfim
concluída essa nova digressão, voltemos à vilã da história. a vilã da história não é uma religião, mas uma igreja. não é a instituição igreja, mas uma igreja específica, uma das maiores igrejas evangélicas do brasil, que por sua vez é dona de uma das maiores redes televisivas do país. antes que me acusem de bater em cachorro morto, o fato é que essa igreja vai muito bem, obrigado, mesmo depois do chute na santa ou do “dá ou desce”. sua rede de televisão apostou na cópia fiel do “padrão globo de qualidade [sic]” e, não muito surpreendentemente, decolou, gerando lucros astronômicos à instituição religiosa, que é isenta de impostos. e a sua vilania reside no sistemático desrespeito à opinião alheia.
fomos à igreja, se bem me lembro, numa noite de terça-feira. houve um engano em relação ao horário do culto, que ocorreria apenas dali a duas horas, o que nos impediria de participar. mesmo assim, o pastor fez questão de vir falar pessoalmente comigo. fazendo alguns malabarismos com as palavras, tentei explicar que não estava ali por completa vontade própria, e sim mais para “ver qual era” a da instituição. o pastor, nesse primeiro encontro, entrou no meu jogo (creio eu que propositalmente, mas tal conclusão só me veio depois dos outros eventos que ainda vou narrar). conversamos sobre a vida de crente, sobre as vantagens e desvantagens práticas, sobre minha obsessão com o conhecimento e como o deus dele poderia atrapalhar isso, sobre os caminhos para se atingir a felicidade (segundo ele, só há um, e é jesus). por fim, perguntou-me se eu não queria ser feliz, ao que respondi, com muita clareza e sinceridade: se para ser feliz eu preciso me abster do conhecimento, não.
mas a pessoa a quem eu precisava agradar não se deu por satisfeita. insistiu que eu acompanhasse um culto completo. vejam bem, até aí, nada tinha acontecido demais. o pastor tinha exposto as opiniões dele, eu tinha exposto as minhas, e eu tinha uma visão respeitosa dele. era, até então, um homem com uma crença firme, inabalável, de quem eu podia discordar de maneira pacífica. convenhamos, uma grande melhora para quem há poucos anos trocava amizades por discussões metafísicas, não?
lasciate ogne speranza, voi ch’intrate
uma semana depois, entrava eu pelos portões de um galpão de pelo menos 200m2, um pé direito de uns bons 6m e cadeiras com um bom espaçamento ocupando metade da área disponível. sentamo-nos próximos da metade da fila de cadeiras, e mesmo assim o palco (altar?) parecia celestialmente distante. a igreja não estava cheia; éramos praticamente os últimos em distância do altar, e à nossa frente encontravam-se vários bancos vazios. sou péssimo para esse tipo de cálculo, mas chuto que havia em torno de 100 a 200 pessoas ali, se muito.
era verão, mas estava absurdamente frio, a ponto de tremer o maxilar e ter vontade de ir ao banheiro. a voz do pastor ecoava forte e vibrante pelo ambiente. o sermão revolvia em torno da bíblia mencionar especificamente a necessidade dos fiéis serem dizimistas, que aquela era vontade de deus, que o desapego materialista era necessário, e como era importante que todos contribuíssem. o frio e o volume estrondoso da voz começaram a fazer com que eu me sentisse infimamente pequeno naquele ambiente, e confesso que, por um breve momento, considerei a hipótese de ser aquele um chamado pelo qual eu esperara por toda a minha vida.
mas a própria igreja católica, por muito tempo monopolista do cristianismo e acusada pelos protestantes de distorcer o significado real da palavra divina, teve, de 1587 a 1983, o cargo de promotor fidei, ou advocatus diaboli, o advogado do diabo. seu papel era procurar evidências contrárias à canonização de candidatos ao posto de santo, desacreditar seus milagres, com o intuito de evitar que charlatões juntassem-se aos verdadeiros trabalhadores da obra divina. uma ironia interessante é que o papel do advocatus diaboli era justamente limitar o número de pessoas pertencentes ao rol da máxima santidade mortal, algo que quase vai ao encontro da teologia protestante, que não aceita a existência de santos.
fiz, então, meu exercício de advogado do diabo ali mesmo: em pleno verão paulistano escaldante, como eu poderia estar sentindo tanto frio? ar-condicionado. e aquela voz poderosa ecoando nos cantos mais profundos da minha mente? um bom sistema de som num galpão gigante quase vazio, propenso a ecos, faria o trabalho. evidentemente, não posso imputar má-fé (com o perdão da ironia) a um ar-condicionado desregulado e a um sistema de som potente, mas minha antena de ceticismo fora ativada.
uma “sessão de descarrego” seguiu-se. uma moça de 30 e poucos anos apareceu no palco gritando palavras ofensivas com voz distorcida, dizendo-se um espírito do mal que queria matar a dona daquele corpo através do qual falava (péssima estratégia para um parasita, diga-se de passagem) e toda sua família. com palavras de ordem, o pastor “expulsou” o “demônio” do corpo da pobre mulher que voltou a falar normalmente, sem distorção alguma, e começou a chorar tão compulsivamente que teve que ser retirada quase que imediatamente pelas assistentes de palco. o show estava ficando interessante, mas o pior estava por vir.
volve sua spera e beata si gode
era hora de retornar ao discurso dizimista. até então, esse foi o momento que mais me chocou. aos brados, o pastou desafiou todos os presentes, especialmente aqueles que se diziam em dificuldades financeiras, a contribuir com uma nota de cem reais para a caixinha da igreja, que ele segurava lá na frente. segundo ele, o desprendimento material que a pessoa demonstraria, ao se livrar do dinheiro quando mais precisava dele, garantiria a misericórdia de cristo e traria bonança num futuro próximo.
nesse momento, olhei a minha volta. a filial a que fui não se encontrava num bairro rico da cidade de são paulo, longe disso, mas também não era o mais pobre dos bairros. entretanto, os fiéis naquele recinto não pareciam, em sua grande maioria, pessoas abastadas, muito pelo contrário. o pastor continuava insistindo, quem teria a ousadia de confiar a deus uma nota de cem reais? e todos se entreolhavam com um misto de vergonha e impotência, como se julgando se a refeição dos seus filhos era tão importante quanto o mandamento divino.
“deus tá vendo, deus tá vendo essa avareza, hein!”, bradava o pastor, ensandecido. ele continuava emitindo comentários cruéis sobre a falta de doações e as assistentes de palco lançavam olhares desaprovadores sobre a platéia. minha companhia procurava agitadamente entre seus pertences tal nota, mas não a possuía. seus tempos de fortuna já não eram mais, e um legítimo sentimento de desespero delineava-se em seu rosto.
como que percebendo que sua aposta não dera certo, o pastor baixou o valor da “promoção” para cinqüenta reais. repetia os bordões de “incentivo” (ou de ameaça), e alguns poucos gatos pingados, entre os quais minha companhia, dirigiram-se ao altar e depositaram as notas lá. ao voltar, essa pessoa a quem eu devia agrados políticos tinha uma expressão tão serena, mesmo em face de suas dificuldades financeiras, que um sentimento de pura indignação tomou conta de mim.
se aquele era o chamado de deus, então ele precisava trabalhar mais em suas habilidades comunicativas. como poderia um deus onipotente, onipresente e, principalmente, benevolente, permitir que as pessoas se sacrificassem daquela maneira? não estamos aqui falando de uma íris abravanel, estamos falando de pessoas que, ao ir ao mercado, têm dificuldade para comprar aquilo que precisam. eu me considero uma pessoa desapegada ao dinheiro, não cobro empréstimos, ajudo quem precisa quando posso, e, por vezes, até mesmo quando não posso. mas é uma decisão que somente cabe a mim.
esse foi o primeiro momento em que ficou evidente a contradição entre aquela igreja e o que penso sobre liberdades individuais. ali, naquele momento, eles estavam desrespeitando o direito alheio de decidir como viver sua vida. no capitalismo, essa decisão está intrinsecamente ligada ao modo como uma pessoa gasta seu dinheiro. se as doações fossem voluntárias, tudo bem; mas não eram. era uma coerção social clara e explícita. aqueles que, a partir da oferta de R$ 50,00, começaram a depositar suas economias na caixinha do pastor, voltavam com, além da serenidade, uma certa superioridade na expressão, por terem contribuído mais com a igreja (ou demonstrado mais seu desapego aos bens materiais) do que os outros. e o pastor incentivava tal comportamento, louvando aqueles que tinham acabado de doar e fazendo comparações com os que não tinham doado ainda, condenando sua avareza.
mas eu ainda não tinha perdido o respeito por esse pastor, num hercúleo esforço em não pré-julgar as pessoas. informações de fontes confiáveis, porém não investigadas a fundo, dão conta de que havia muito em jogo naquele momento das doações. dentro da organização interna dessa igreja, há uma legítima competição entre as suas diversas filiais pela arrecadação. o dinheiro não fica com os pastores, evidentemente. eles sequer possuem bens em seus nomes; todos os bens materiais de que usufruem são de propriedade da igreja. à medida em que crescem no ranking interno da instituição, eles conseguem melhores benefícios. se são demovidos, perdem privilégios.
aquele homem que lá na frente ameaçava os fiéis de danação eterna por não poderem doar os poucos reais que tinham na carteira era alguém que não tinha nada dele. se a arrecadação da sua filial crescesse menos do que a das outras filiais, ou ainda, o horror, diminuísse, ele sofreria na pele as conseqüências. ele estava lutando por si próprio, da mesma forma que pedia para os outros não fazerem. survival of the fittest; ele apenas lutava pelo que considerava lhe ser de direito. cruel? sim. invasivo? também. mas, dadas as condições em que ele vivia, era sua única opção, independentemente da sinceridade de sua fé.
e contra ‘l suo fattore alzò le ciglia
o culto então terminou. corri para o banheiro e aliviei um dos efeitos nocivos daquele ar-condicionado regulado para tão frio. hoje, enquanto escrevo, faz 13ºC de temperatura. senti mais frio naquela igreja.
o pastor avisou minha companhia que queria conversar comigo após o sermão. aguardei sentado em um dos bancos de uma das primeiras filas enquanto diversos fiéis se despediam e agradeciam ao pastor. outra coisa que aprendi nesses últimos anos é que sim, a religião pode ser benéfica para as pessoas, mesmo com, a meus olhos, alguns defeitos. embora jamais vá deixar de me indignar quando vir alguém interferindo na liberdade individual de outrem, há pessoas que desejam essas intervenções. e mesmo as que não desejam a intervenção per se, defrontadas com os efeitos positivos de se sentir parte de um grupo (ou da intervenção divina, na qual eu não acredito), acabam por aceitar. e há mesmo religiões que não praticam nenhum tipo de intervenção na vida das pessoas – bom, ao menos isso é o que eu quero acreditar, embora meu alarme de ceticismo dispare escandalosamente enquanto escrevo estas palavras.
eis então o momento do clímax. o pastor e uma de suas assistentes, uma angolana, ou holandesa, ou francesa (juro que era um dos três, mas me falha a memória de qual), estavam livres para falar comigo. as luzes do galpão haviam sido diminuídas, como que para criar um ambiente mais intimista, embora, repito, não possa afirmar com certeza de que houve alguma segunda intenção. estávamos apenas nós lá: eu, minha companhia, o pastor e sua assistente. eu estava sozinho.
retomamos o assunto da semana anterior. falamos sobre conhecimento, e o pastor se esforçou para me convencer não de que poderia conciliar o conhecimento com a religião, mas de que o conhecimento aprovado pela religião era o certo. sobre os caminhos para felicidade, afirmou que há um só, jesus cristo, “porque assim diz a bíblia”. sobre a minha escolha pelo conhecimento em detrimento de uma possível felicidade, concluiu um belo silogismo dizendo que o conhecimento correto traz apenas felicidade. ele havia feito a lição de casa.
tentei redargüir, mas confesso, o pastor era um excelente retórico. evidentemente, ele não teria chegado ao posto de pastor principal de uma importante filial da tal igreja sem ter alguma habilidade retórica. e digo isso, por incrível que pareça, sem qualquer sarcasmo, pois mesmo para convencermos alguém daquilo que julgamos ser correto precisamos de uma boa retórica. sem falsa modéstia, sou em geral um bom argumentador, mas contra um profissional como aquele pastor, fiquei feliz de ter conquistado um empate. consegui levá-lo a um ponto em que não havia mais como montar um silogismo, era minha palavra contra a dele, e a respeito de como eu me sentia. ele não podia querer saber mais do que eu mesmo sobre aquilo que, mais do que pensar, eu sentia, correto?
mas então a máscara caiu.
com’ io divenni allor gelato e fioco, nol dimandar, lettor, ch’i’ non lo scrivo
como um hábil esgrimista brandindo seu florete, o pastor aplicou o golpe final. lembram-se de que eu havia dito que toda essa jornada era em função de um agrado político à minha companhia? pois o pastor percebera isso, e, pelo modo eloqüente como ele colocou isso na metafórica mesa de discussões, não era de agora. e foi mais longe: não apenas não me condenou, como poderia, pela apenas parcial honestidade ao comparecer ao seu culto, como também sugeriu que, com a aceitação sincera dos preceitos que defendera até então, meus objetivos políticos seriam mais facilmente atingidos.
ah, dante, mentor involuntário deste blog, empresta-me tuas sábias palavras: a maneira como então eu me senti gelado e fraco, não pergunte, caro leitor, que não a escrevo. remontemos então ao tema de não-invasão da liberdade alheia. aquilo era a epítome de tal invasão. teria minha companhia alertado-lhe de minhas possíveis aspirações políticas? possível. mas pensar assim seria subestimar meu contendor, e subestimá-lo era algo que eu não poderia mais me dar ao luxo de fazer. talvez fossem óbvias minhas intenções, mas prefiro creditar à sua incrível habilidade observadora o fato de ele ter percebido tudo. sei reconhecer uma derrota, e atribuo-a ao talento do meu adversário.
mas, na ânsia de vencer minha argumentação, o que fez com sucesso, o pastor cometeu um erro fatal: naquele momento, eu o via como um adversário, não como alguém que pudesse me ajudar. mais: ele claramente tentava me vender uma religião, ele claramente oferecia-me um benefício em troca da entrega a jesus cristo. perdoe-me, caro pastor, mas não é isso que nem eu nem feuerbach vemos de belo na religião. admiramos a fé, pelo abandono voluntário da razão em função de algo que não se pode provar, apenas sentir. naquele momento, me vi em um balcão de negociações, frente a um habilidoso vendedor que tentava me convencer não apenas de que o produto dele era o melhor que eu poderia adquirir, mas também de que, se eu não o adquirisse, poderia dizer adeus às minhas aspirações políticas.
vencendo-me, ele me perdeu. não por orgulho infantil de derrotado, e sim pela lógica perversa a que ele se viu obrigado a recorrer. mas o que realmente me fez gelar ali foi a maneira cruel e despudorada com que ele enfiou suas mãos nuas no âmago da minha alma, se eu tenho alguma. perdoe-me, caro leitor, por não poder ser mais específico sobre o que ele tocou de tão íntimo, mas peço-lhes que aceitem a minha palavra: nunca, em toda minha vida, nenhuma pessoa havia se permitido o direito de me julgar e analisar tão friamente, e de usar essa análise em benefício próprio tão descaradamente. e isso vem de alguém que passou mais da metade da vida freqüentando psicólogos e psiquiatras, e teve mais relacionamentos de co-dependência do que seria saudável.
e quindi uscimmo a riveder le stelle
a partir desse momento, me tornei incapaz de argumentar. um misto de vergonha, ódio e invasão de privacidade tomou conta de mim. sua lógica mercantilista tinha falhado, e eu não me daria mais ao trabalho de argumentar com ele. desconversei sobre os objetivos políticos que ele tinha mencionado.
posteriormente, meus objetivos falharam. talvez, se eu tivesse continuado a freqüentar aquele lugar, eles tivessem funcionado. mas eu não teria paz de espírito, jamais. eu estaria lá em busca de algo material, não para honestamente louvar. estaria satisfazendo apenas a ganância daquela igreja, que, indiretamente, força seus pastores a recorrerem aos expedientes mais mesquinhos para aumentar sua arrecadação. se algum dia eu abandonar meu ateísmo, será por algo em que realmente acredito, não por buscar alguma contrapartida.
meu ateísmo, na verdade, se fortaleceu desde então. se deus existia, e precisava que seus mais altos representantes na terra (caso essa igreja esteja correta sobre o que pensa deus) destruíssem o will (algum dia explico por que creio que esta palavra é intraduzível; por ora, tomem “fortitude” como equivalente) dos seus possíveis fiéis para fazê-los juntar-se a seu rebanho, esse era um deus a quem eu não iria venerar. e todo o meu respeito por aquela igreja específica, construído por anos a fio após uma desastrada discussão metafísica enquanto comia um cachorro-quente, perdeu-se naquele dia.
não posso reforçar o bastante o quanto reconheço a superioridade observadora e argumentativa do pastor. ele realmente fez miséria de mim naquele dia. mas, enquanto me dirigia com minha companhia aos portões do galpão, não era isso que atormentava minha mente, e sim o nível a que um suposto representante de deus na terra tinha se deixado rebaixar por um reles fiel.
então saímos, para rever as estrelas.

fagulhas